Pensamentos em trânsitos ou cartas a si mesmo

Comentários dos artistas e pensadores Antonio Hélio Cabral e Valdir Rocha

1.

Torna-te quem tu és. Friedrich Nietzsche

Freud foi enorme. Desvendou a psique humana como ninguém. Criou um vocabulário próprio.

Nietzsche já tinha intuído Freud. O Nascimento da Tragédia é a premonição rudimentar de Freud.

Ambos pensadores recorreram a mitologia grega. Apolo, Dionísio, Édipo.

Os gregos inventaram tudo. O teatro, a filosofia, a democracia.

Tudo o que pode ser inventado se descobre nos clássicos.

Não há nada de novo no progresso.

Heidegger fundamentou um sentido para existência. Reelaborou um significado ontológico. Expandiu fronteiras. Criou linguagem.

Linguagens são as formas que criamos para compreendermos o mundo.

Não há mundo sem linguagem.

Expandir o vocabulário é uma necessidade dos mergulhadores da vida.

Oceano das vontades. Possibilidades da existência.

Heráclito percebeu antes de nós a força do movimento.

Percebo que determinados padrões e características se repetem em minha personalidade. Percebo que estou preso dentro de mim. Não há escapatória para os exercícios dos meus desejos. Posso me esquivar por um tempo. Mas tudo está escrito. Não porque alguém disse. Mas porque tudo está condenado no meu ser. Nada de novo pode ser descoberto. Tudo que vivo se repete eternamente no ciclo natural de minha vida. Não adianta me debater e me iludir. Tenho que aceitar os fatos. Estou preso dentro de mim. O mundo externo é uma corrente que me prende o calcanhar. Posso me deslocar numa certa amplitude. Mas nada me fará diferente daquilo que sou. Posso conhecer novas pessoas e lugares. Mas nada me fará outra pessoa. Posso me disfarçar e me furtar. Mas nada me fará mudar. Não porque seja teimoso e descrente. Mas porque tudo já foi escrito em mim.

Dostoiévski não fez nenhum favor a humanidade. Ele manifestou de forma genuína o que queria dizer.

É hora de me confrontar com os meus heróis. Descubro que posso ser do tamanho deles. Não porque tenho um caráter excepcional. Mas porque tenho coragem de enfrentar os meus traços.

Não posso — mesmo se quisesse — deixar de ser quem sou. Preciso me aceitar exatamente como sou. Cada traço, cada ferida, cada marca de minha personalidade. Posso ser considerado gentil e violento. Não posso me trair. Não posso me submeter aos pavores alheiros. Não posso me entristecer pela vergonha alheia. Não posso me adormecer pelos medos de outros.

Tenho os meus próprios medos. Eles sempre estiveram comigo.

Está na hora de me aceitar como sou. Chega de julgamentos e de opiniões externas. Sou o que sou. Assim irei até o final dos meus dias. Pois, mesmo se quisesse ser um outro estaria mentindo.

Esse é o meu grito de independência. Aceito cada centímetro do meu corpo.

Chega de se redimir pelos meus atos. Está na hora de falar pro mundo que sou esse indivíduo, com essas qualidades e com esses defeitos.

Fica quem quiser. Cada um é livre para escolher o que quer. Escolho ser eu mesmo. Me responsabilizo por ser eu mesmo.

Não preciso implorar nada pra ninguém. Estou com 37 anos de idade. Aliás, que idade. Sinto-me forte o suficiente para ser quem sou.

Comentários Cabral —

Sua fala contempla algumas questões fundamentais: o ser pode transformar-se? É possível ao ser atingir um supra ser, ou seja chegar ao seu próprio ineditismo?

Comentários Valdir Rocha —

O pensamento sintetizado em aforismos exige muita elaboração para se chegar a ele. Por isso, pode dar a falsa impressão de que surge de
supetão. Grave engano.

Eu também sou um colecionador de repentes. A eles me atrevo só depois de muito gestá-los. Daí que escrevê-los, um a um, pede-me muito tempo e firmeza. São cartas a mim mesmo, assim como Marcos Amaro escreve “cartas a si mesmo”. Os aforismos de cada um são ditos permanentes e duradouros, até que se tornem substituíveis por outros que digam mais, ou seja, são pensamentos em trânsito.

Quando guardo todo um pensamento ou um aforismo de outrem e uso-o como verdade minha também é porque encontrei nele um eco
servível.

“Torna-te quem és” (Nietszchze) tem peso porque resume muito do que cada pessoa madura tem que assumir de si para si. A infância pod ser entendida como tempo de contato e humanização; a adolescência é período de dúvidas e questionamentos; a idade adulta é o período fértil das respostas e das dúvidas mais relevantes.

Os gregos inventaram muito, mas não tudo. A civilização tem duas faces fundamentais, uma olha para o ocidente e outra para o oriente. É certo que o peso dos gregos perdura no pensamento filosófico ocidental.

Os autores clássicos ocidentais e orientais dão a base do pensamento hodierno. Ocidente e oriente estão cada vez mais próximos.

Isso que se chama progresso pode enganar, porque sob essa aparência guarda-se também um ou outro retrocesso.

O novo surge por camadas e se sobrepõe ao antes alcançado. Todo acréscimo pode ser valioso. Nesse sentido, poucas descobertas e/ou invenções são realmente revolucionárias. No progresso há apenas um pouco de novo.

Eu sou a minha linguagem. Cada pessoa vive a sua linguagem, a menos que desprovida de caracteres que a conformem como individualidade.

2.

Conhece-te a ti mesmo. Sócrates

A possibilidade de estarmos livres mora no enfrentamento de nossos pavores.

Camadas e projeções são apenas sintomas de nossos verdadeiros sofrimentos.

Sublimações e idealizações são estratégias e reposicionamentos existenciais.

Encontrar causas e efeitos são o que verdadeiramente importam.

Dissolver camadas e liberar tensões.

Entrar e sair da crise. Já outro.. Em busca de mais compreensão, de liberdade e de prazer.

Transformar-se pelo sofrimento. Não há crescimento sem crise. Como não há transformação sem emoção.

Saber o momento certo de se despedir. Para que algo novo posso nascer. No eterno amanhecer de todas as coisas.

Comentários do Cabral —

Irretocável!

O medo cria sua colônia a partir de uma ferida que tem pavor da luz…e conta com nosso temor em iluminá-la. Como seu texto bem coloca é preciso que tratemos desta ferida, que olhemos em seus olhos, a reconheçamos como igual para poder ouvi-la e curá-la. A sua cura é nosso modo de aprender sobre nós mesmos e crescer…

Foi uma feliz coincidência ou bruxaria de sua parte ter me enviado o texto, estou exatamente neste momento: “Saber o movimento certo de se despedir. Para que algo novo possa nascer. No eterno amanhecer de todas as coisas.”

Comentários Valdir Rocha —

A ninguém é dado conhecer mais certa pessoa do que à propria. Então, só pelo amor ao debate, pondero que há muito de novo a ser descoberto e inventado. Para começar, a pessoa se redescobre a cada dia, de acordo com suas vivências. Sim, as vivências prendem o indivíduo a seus padrões e características; isso pode ser chamado personalidade. Desse modo, algo pode mudar na pessoa e mesmo assim ela continuará a mesma. A pessoa é o que recebeu e o que se acrescentou.

Toda pessoa se movimenta com seus receios (ou medos) e com suas coragens e desafios. Na idade adulta, cada pessoa já está conformada, pouco muda e pouco se quer mudar. O adulto é convicto de suas certezas, até na aceitação do erro.

A pessoa madura é aquela que está pronta e forte para o que vem pela frente.

3.

O julgamento é a vingança preferida de pessoas limitadas. Autor Desconhecido.

O julgamento é a pior coisa para um artista. No fundo um artista não precisa de elogios e de críticas. Mas o que seria de um artista sem a plateia? Nada. Esperamos aplausos! Esse momento de retribuição do público para o artista. Essa troca de energia que enobrece as grandes almas e acalenta os espíritos livres.

Sobre o papel das amizades…

Penso que os amigos são aqueles que estão comigo “no matter what“. Mas até que ponto isso me complica? Quais são os limites e as implicações desse dilema? Até que ponto isso pode ser justificado?

A moralidade. Aquilo que é certo. Os valores do nosso tempo. Os valores católico-cristão. Enfim. O caminho da verdade.

A maior parte das pessoas querem viver a vida sem embaraço. A vergonha. O desequilíbrio. Ofensas e impulsos violentos são imediatamente censurados. Em nome do bom convívio e de uma vida de mentira.

A realidade. O medo. O desgosto. Nada disso pode ser visto aos olhos da maioria. Não há espaço para a liberdade de expressão. A maioria é conservadora. Não se permitem transbordar. Perder o controle. Tudo está em perigo o tempo todo. Mas poucos querem ver isso. A maioria está contida. Dentro de um casco rabujento.

Como escolho os meus amigos?

Os meus amigos são os meus aliados. Aqueles que estão prontos para me defender. Que me defendem na ausência. Que suportam as minhas características e vontades. Afinal, é muito mais difícil dizer sim.

Os complexos e as entrelinhas…

Como relacionar essas questões com personalidades e valores distintos?

Projeções. Idiossincrasias. Ninguém é igual a ninguém. O certo para um pode ser errado para outro. O consenso sobre o que importa?

Ensinamentos e doutrinas não necessariamente são o caminho da verdade. Cada um deve ser o seu próprio castelo. O guardião dos seus próprios valores e segredos. Não há espaço para o apaziguamento.

A guerra. As diferenças. O embate. O enfrentamento. Tudo deve ser questionado.

A construção de um olhar amplo sobre o mundo.

A formação de grupos como estratégias de sobrevivência. A luta contra indivíduos auto-suficientes.

O indivíduo que queira se tornar senhor de si deve estar pronto para abandonar a imagem que criou de si mesmo.

Se sentir estrangeiro em sua terra natal. Como um viajante em direção ao seu destino.

O mundo interior como cúspide dos acontecimentos. A formação do homem grego. O indivíduo livre. O gênio da espécie.

Nada é mais arrebatador para o gênio do que o apaziguamento. Um calmante. A falta de enfrentamento. O gigante adormecido. Napoleão em Santa Helena.

Nietzsche e Joseph Beuys como vanguarda.

A preservação de si mesmo. O afastamento do rebanho. A vitória da epseidade sobre o coletivo.

O curso como prova. O legado como instrumento de manobra. A mudança como princípio.

Comentários Cabral —

Você é o cara mais Nietzschiano que eu conheço, o eterno pensar fora do pensamento…

Comentários Valdir Rocha —

Sozinha e isolada completamente, a pessoa não terá a chama da vida. O indivíduo é parte de um ser coletivo. A pessoa é um convivente.
Sem amigos nada se é. Clarice Lispector, pontuava que “amizade é matéria de salvação”. Repito isso porque acredito no que essa citação contém.

Os amigos, os parceiros e os aliados são aqueles que nos fotalecem diante das adversidades e colaboram na sua superação e partilham da alegria das conquistas.

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