Lápide Prolongada, Ricardo Resende | 2019

Marcos Amaro: Lápide Prolongada

O trabalho de Marcos Amaro está na virada do século XX para o XXI, em uma nova era daquilo que se vislumbra para a sociedade.

Nesse limiar de século, vivemos sob a luz de um novo signo econômico, político, social e cultural, onde não nos entendemos bem nas novas relações interpessoais e não sabemos mais o que carregar de memória e cultura imateriais.

Marcos Amaro trabalha com a obsolescência das coisas. Tudo passa muito rápido, como o tempo para a sociedade contemporânea. A memória não se fixa, pelo contrário, dilui-se com a velocidade dessas relações interpessoais e sociais, frugais e sem lastro.

Vivemos uma era onde se arquiva tudo e todos os modos. Mas o que se percebe é que nada se fixa, nada permanece. O passado não compensa as incertezas do futuro para essa sociedade imediata. A memória e o conhecimento são deixados para trás com muita facilidade. Consequentemente, a memória não importa mais. Nos tornamos quase acéfalos diante de uma sociedade que contempla a não inteligência e a desmemoria.

Marcos Amaro, com sua obra, vai pelo caminho contrário, quer buscar a sedimentação da memória, das lembranças. Em outras palavras, quer sua museificação. Cria com seus desenhos de traço denso e esculturas que cheiram a graxa, borracha e madeira, instalações e pinturas tridimensionais, feitas de materiais espessos, de cores densas e sujas. São destroços e vestígios do fim da modernidade na forma dos restos de aviões. Os rastros da obra são impregnados de óleo, graxa, parafusos, de partes aeronáuticas como carcaças de turbinas, bancos, hélices, asas e muitas outras partes.

São resíduos do que foram os aviões e, em um desejo expresso do artista, ávido por mudanças e transformações, vem daí o desejo de enterrar partes de asas “vivas” na piscina do SESC Quitandinha. A lama é feita de cimento de maneira a não colocar em risco e, muito menos, estragar o patrimônio.

O que se vê na obra de Marcos Amaro na sua primeira fase de criação é a predominância de materiais de procedência aeronáutica, organizados como se fossem uma grande colagem de materiais. Essa ordenação resulta em formas geométricas meio moles, meio disformes.

Amaro divaga sobre essa diversidade de materiais e formas que acumula ao longo da vida, oriundos das carcaças de velhos aviões e de seu maquinário.

Desmonte, acúmulo e colagem são o processo de criação que, hoje, aponta para nova direção: mais pictórica com  trabalhos que guardam ainda planaridade e vão direto para a parede.

Os trabalhos anteriores são partes combinadas que constroem formas inusitadas que, de tão reais, ainda exalam cheiros, mesmo que eles já não existam mais nos restos da aviação. Sente-se no ar o odor da querosene, do óleo queimado das turbinas, da poeira acumulada nos feltros e lonas que Marcos usa para criar ‘pinturas’ e esculturas matéricas.

No entanto, o trabalho de Marcos Amaro fala de transformação, da evolução que já tornou-se obsoleta. Das asas que não voam mais para fazerem pouso agora na eternidade.

É com esse material, as partes de aviões, as peças e suas engrenagens, que cria suas esculturas e site specific works.

Sua obra está em plena transformação.

Depois de organizar essas partes do avião de forma pictórica em trabalhos que se fixam no chão ou sobem nas paredes, Marcos Amaro apresenta o site specif Lápide Prolongada.

Um trabalho instalativo que fala de fossilização e museificação daquelas coisas que não mais tem uso. Asas que não voam mais.

É um desejo de enterrar ou de soterrar, mais precisamente, essa memória que o persegue ao longo da vida e ao longo de sua carreira. O artista passa por um processo de “exorcizar” essas lembranças, de suas vivências com os aviões e voos. O artista tem formação para pilotar aviões. Para ele, nesse processo por que passa, só lhe resta, poeticamente, criar lápides e enterrar os aviões que carrega em sua memória.

A instalação na piscina do SESC Quitandinha será “cimentada” para receber as partes de asas de aviões. Como se essas asas que não voam mais fossem levadas para a condição de lápides: aqui jaz parte da sua história.

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