A História Voltou aos Céus

Toda criança é tocada, de uma forma ou de outra, pelo fascínio da aviação. Seja ao contemplar essas máquinas mais pesadas que o ar, capazes de vencer a gravidade graças à combinação do empuxo dos motores com a sustentação gerada pelas asas; seja pela dinâmica vibrante dos aeroportos, aonde chegadas e partidas alimentam sonhos e despedidas; ou, ainda, pelos antigos mitos de Dédalo e Ícaro, que habitam nosso imaginário coletivo como símbolos do eterno desejo humano de conquistar os céus.

A aviação desperta a imaginação de maneira singular. Ela nos convida a enxergar o impossível como um desafio a ser superado, transformando o voo em uma das maiores expressões da engenhosidade humana. Muito antes de a ciência tornar possível cruzar os céus, o homem já sonhava em voar. Esse desejo atravessou séculos, inspirou mitos, alimentou lendas e impulsionou gerações de pioneiros que se recusaram a aceitar que o horizonte fosse um limite.

Comigo não poderia ter sido diferente.

Nasci em uma família de aviadores, homens que dedicaram suas vidas aos céus e ajudaram a escrever um dos capítulos mais marcantes da aviação brasileira, durante aquilo que considero sua verdadeira Belle Époque — a Era de Ouro em que o país viu nascer empresas, líderes e projetos capazes de conquistar reconhecimento internacional.

Minha infância foi profundamente marcada por esse universo. Cresci entre aeroportos, hangares, aeronaves e histórias que pareciam impossíveis. Mas foi, sobretudo, acompanhando a trajetória de meu pai, o Comandante Rolim Amaro, que compreendi a dimensão que um sonho pode alcançar quando encontra disciplina, trabalho e paixão.

Sob sua liderança, a TAM transformou-se de uma companhia regional em uma referência mundial de excelência. Em 1995, conquistou um feito histórico ao ser eleita a Melhor Companhia Aérea Regional do Mundo pela prestigiada revista Air Transport World, tornando-se a primeira empresa fora dos Estados Unidos e da Europa a receber esse reconhecimento. Dois anos depois, em 1997, seria novamente consagrada ao ser escolhida como Empresa do Ano na tradicional premiação Melhores & Maiores, da revista Exame.

Naquela época, eu talvez ainda não compreendesse a verdadeira dimensão dessas conquistas. Hoje entendo que aqueles prêmios representavam muito mais do que troféus ou títulos. Eram o reconhecimento de uma filosofia baseada no respeito às pessoas, na busca permanente pela excelência e na convicção de que uma empresa brasileira poderia ocupar um lugar de destaque entre as melhores do mundo.

Mas, para meu pai, o Comandante Rolim Amaro, e para meu tio, João Francisco Amaro, aquelas conquistas jamais representaram um ponto de chegada. Pelo contrário. Eles acreditavam que toda grande realização traz consigo uma responsabilidade ainda maior: a de retribuir.

Depois de verem a TAM transformar-se em uma das maiores companhias aéreas do país, nasceu entre eles uma convicção simples e profundamente nobre: devolver à sociedade brasileira uma parte daquilo que ela lhes havia proporcionado.

Dessa visão nasceu o Museu Asas de um Sonho, em São Carlos. Mais do que reunir aviões históricos, o museu foi concebido para preservar a memória da aviação, inspirar novas gerações e homenagear todos aqueles que, com coragem e perseverança, ajudaram a construir a história da aviação brasileira.

Nada disso teria sido possível sem a generosidade de inúmeros parceiros. Muitos dos stakeholders da TAM compreenderam a importância daquele projeto e doaram aeronaves de extraordinário valor histórico para a formação do acervo. Cada avião incorporado ao museu carregava consigo uma história, uma conquista e um legado. Foi graças à confiança e ao espírito de colaboração dessas pessoas que se tornou possível construir um dos mais relevantes acervos aeronáuticos do mundo.

Infelizmente, meu pai faleceu em 8 de julho de 2001, sem ter a oportunidade de ver seu sonho plenamente concretizado. Coube então ao meu tio, João Francisco Amaro, assumir a missão de guardião desse extraordinário patrimônio. Durante mais de duas décadas, ao lado de colaboradores, voluntários, amigos e apaixonados pela aviação, ele preservou intacto um acervo que pertence não apenas à nossa família, mas à memória e à história do Brasil.

Em abril de 2024, recebi a honra de assumir a presidência do Museu Asas de um Sonho. Compreendi, naquele instante, que minha missão era muito maior do que administrar uma instituição. Tratava-se de devolver asas a um sonho iniciado por meu pai e por meu tio décadas atrás.

Com o apoio incondicional de minha família, de meu tio, de amigos como o Comandante Décio Corrêa e, mais recentemente, do Comandante da Aeronáutica Marcelo Kanitz Damasceno, tornou-se possível iniciar um novo capítulo dessa história. Encerramos, com respeito e gratidão, o ciclo do museu em São Carlos — hoje sede do centro de manutenção da LATAM — para abrir caminho à realização de um sonho ainda maior: devolver à cidade de São Paulo um grande museu dedicado à aviação.

Desde o encerramento das atividades do museu de aviação na Oca (Parque do Ibirapuera), São Paulo, berço da aviação brasileira, permanecia sem um espaço à altura de sua história. O comodato de quarenta aeronaves históricas pertencentes ao Museu Asas de um Sonho, somado à visão do Comandante Marcelo Kanitz Damasceno de criar o Museu Aeroespacial Paulista (MAPA), em uma área de cerca de 100.000 m², representou a oportunidade que esperávamos para que esse sonho voltasse a ganhar força.

Jamais esquecerei o dia 3 de julho de 2026. Ao entrar no hangar durante a primeira ativação do museu em São Paulo e ver novamente o Curtiss Robin ocupando posição de destaque, fui imediatamente transportado para minha infância. Aquela aeronave, que durante tantos anos permaneceu no hangar da Fazenda Jaguarundy, em Mato Grosso do Sul, foi testemunha de inúmeros voos que fiz ao lado de meu pai. Naquele instante compreendi que os aviões preservam muito mais do que madeira, alumínio e aço. Eles preservam memórias, afetos e histórias de vida.

Como filho, não poderia estar mais feliz. Dar continuidade a esse legado é minha forma de retribuir uma pequena parcela de tudo aquilo que meu pai fez por mim e de honrar o sonho que ele compartilhou com meu tio: devolver à sociedade brasileira parte daquilo que ela lhes ofereceu.

E, ao concluir estas palavras, permito-me dirigir uma última homenagem àquele que ajudou a devolver asas a esse sonho.

Meu amigo, Comandante Marcelo Kanitz Damasceno.

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